Blue House em Marvila, Lisboa, Portugal
21 de julho de 2026
Arquitetura: extrastudio – arquitetura, urbanismo e design ltda
Localização: Região de Lisboa, Portugal

Fotos: Mikael Olsson
Este projeto é o primeiro de uma série de três residências que chamamos de casas poveras. Moldadas num tempo de incerteza, mas recusando-se a comprometer a escala, estas casas foram despojadas do essencial, adquirindo um carácter inesperado, cru e intenso.

Outrora uma paisagem de quintas e campos agrícolas, Marvila tornou-se no principal distrito industrial de Lisboa no século XX. Delimitada pelo rio Tejo e pelas suas linhas ferroviárias, a zona é definida por uma tipologia distinta de armazéns que outrora albergaram indústrias reflectidas em nomes de ruas como Rua do Açúcar e Rua da Fábrica do Material de Guerra. Depois de décadas de abandono, estes mesmos armazéns estão agora repovoados com estúdios e galerias, fazendo de Marvila o bairro criativo mais vibrante da cidade hoje.
O projeto reforma e amplia uma casa térrea construída em 1893, preservando integralmente a estrutura existente. A casa existente foi tratada como um artefacto, com as suas características cuidadosamente mantidas. A nova ampliação altera apenas a forma exterior e uma passagem lateral que dá acesso ao jardim.

Da mesma forma, elementos arquitetônicos das fachadas existentes foram removidos, restaurados e incorporados nas novas fachadas. Antigo e novo foram finalizados da mesma maneira. Os diferentes períodos de tempo são legíveis apenas na silhueta do edifício e na textura dos materiais.
Apesar da falta de grandeza da casa existente, o projecto abraça a sua modéstia e imperfeições como um registo do passado – um traço da vida real e quotidiana – que de outra forma poderia ter sido perdido.
RELATÓRIO DE PROJETO
Os nossos clientes tinham dois pedidos para a casa: um carácter generoso, aberto e tipo loft e uma garagem que se integrasse perfeitamente na sala, para que fosse possível trabalhar em carros ou motos sem se separar da vida quotidiana da família.
Dois gestos definem a casa. Um corte frontal em toda a largura, voltado para a rua, cria um pátio de dois andares, proporcionando sombra e privacidade aos dormitórios e, em contrapartida, um espaço interior de pé-direito triplo voltado para o jardim, revelando toda a escala vertical do edifício.

Pontuada por janelas, a fachada posterior é cortada num dos cantos por uma faixa vertical de luz, resultado de uma restrição legal que optamos por abraçar, que corta a fachada posterior na diagonal. Como em Can Lis de Utzon, durante alguns minutos no final do dia, um raio de luz entra lentamente no espaço e gira enigmaticamente.
Uma vez definido o conceito de design, todas as decisões relativas a acabamentos, texturas e cores foram intencionalmente deixadas em aberto para serem tomadas no local com os artesãos e clientes. Seus conhecimentos e decisões tornaram-se visíveis, conferindo ao edifício uma expressão artesanal e tátil – ao mesmo tempo áspera e refinada.
O acaso permitiu-nos cobrir todo o piso térreo com folhas de alumínio, escovadas à mão por um dos artesãos. Sua superfície lembra o couro: natural, macio e luminoso.
As paredes internas ficaram nuas, cobertas apenas com uma camada de gesso cinza, a cor de Jannis Kounelli do nosso tempo. Descobrimos no local este gesso cinzento, uma solução económica que unificava todos os elementos, ao mesmo tempo que ligava discretamente a casa ao passado de Marvila.
O azul ultramarino, cor histórica e artificial que define a casa, foi encontrado no edifício existente. Um reboco de cal pigmentado unifica todo o volume. Sendo o azul um pigmento instável, cada fachada tinha que ser acabada num único dia, sem costuras ou reparos, um ato de Sísifo. Esta camada azul confere à casa uma aparência ambígua, mais antiga que nova, mas utilizada de uma forma que a ancora ao presente.
Como observou certa vez o músico Hermeto Pascoal: “Fizemos na hora, ali mesmo no local. Chegamos e eles estavam brincando.”

Blue House in Marvila, Lisbon, Portugal home – Property Information
Créditos
Localização: Lisboa, Portugal
Programa: Moradia unifamiliar, 251 m2
Client: PatrÃcia Dias, Artur Portugal
Team: João Caldeira Ferrão, João Costa Ribeiro, Sónia Oliveira, Rita Rodrigues,
Marta Oliveira, Martim Mota
Arquitetura paisagística: Oficina dos Jardins
Consultores: Pedro Viegas (projeto estrutural), Sandra Mota (hidráulica), Blueorizon
(gás, física predial, acústica, elétrica, segurança)
Construção: Vassalo & Sousa
Fotografia: Mikael Olsson
Fotos de modelo: José Pedro Marques
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Location: Marvila, Lisbon, Portugal, southwestern Europe.
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