Em 7 de outubro de 2019, o ativista Roma Ognyan Isaev se deparou com uma cena estranha ao entrar na cidade búlgara de Sliven: centenas de pais correndo em direção às escolas locais. Isaev estava na cidade para lançar um projeto educacional com a Trust for Social Achievement. Observando de dentro do carro a multidão em pânico passando por Nadezhda, um bairro majoritariamente habitado por Roma, Isaev refletiu consigo mesmo: “Estamos no meio do experimento”.
O ativista logo descobriu nas redes sociais a origem do pânico: um boato de que os serviços sociais estavam prestes a levar as crianças da escola e enviá-las para a Noruega.
Isaev testemunhava os efeitos de uma campanha de desinformação de direita direcionada às comunidades Roma na Bulgária, com o objetivo de minar a proposta Estratégia Nacional para Crianças do país. Em 2019, o governo búlgaro apresentou seu rascunho de estratégia 2019-2030, apoiado pelo UNICEF e pela sociedade civil, com o objetivo de proteger melhor famílias vulneráveis, prevenir abusos contra crianças e aumentar o investimento em uma gama mais ampla de serviços para menores. [Contexto: A Bulgária estava buscando melhorar a proteção de crianças em situação de risco de pobreza, conforme dados de Eurostat.]
O Facebook estava repleto de narrativas de desinformação minando o plano. O Barnevernet, sistema de proteção infantil da Noruega, era visto como manipulador nas sombras: a Noruega estava supostamente co-financiando o projeto para que casais gays na Noruega pudessem adotar crianças búlgaras. [Contexto: O falso argumento afirmava que o Estado búlgaro estava copiando o modelo de proteção infantil norueguês e poderia remover crianças de suas famílias por motivos triviais.]
Uma campanha de desinformação contínua desencadeou “uma onda de histeria coletiva e protestos”, de acordo com o Eurochild. Manifestações contra a estratégia foram organizadas em mais de vinte cidades da Bulgária. A Rede Nacional para Crianças tentou combater as falsas alegações, mas não recebeu apoio das autoridades. Eventualmente, o então primeiro-ministro Boyko Borisov anunciou que o rascunho havia sido retirado de debate público.
Na Romênia, a lei de proteção infantil enfrentou pressões semelhantes em 2023. [Contexto: A lei buscava melhorar a intervenção das autoridades para manter crianças vulneráveis em casa.] [Fact Check: A lei enfrentou críticas de políticos alegando que as autoridades estavam tentando tirar as crianças das famílias.]
[Contexto: As comunidades Roma são altamente sensíveis a narrativas sobre a separação de crianças dos pais.] [Fact Check: Pesquisas sugerem que as comunidades Roma estão expostas a dois principais tipos de desinformação.]
[A desinformação nas comunidades Roma não é apenas um instrumento da Rússia, mas também vem do Ocidente e se espalha por meio de comunidades evangélicas com laços com os EUA.] [Fact Check: Igrejas evangélicas tiveram um papel significativo no desenvolvimento das comunidades Roma na Bulgária, mas também disseminaram desinformação.]
[A separação forçada de crianças Roma de suas famílias na Bulgária é um problema documentado.] [Fact Check: Mais da metade das crianças em acolhimento na Bulgária são de origem Roma.]
[A resistência às campanhas de desinformação está intimamente ligada ao nível de confiança das pessoas nas instituições estatais e na mídia.] [Fact Check: As comunidades Roma têm muito menos confiança na polícia e no sistema judiciário do que a população majoritária.]
[Contexto: Roma por Democracia lembrou à União Europeia a necessidade de combater o racismo antirromani.] [Contexto: A Estratégia Nacional para Crianças da Bulgária permanece engavetada, mas a sociedade civil tem tirado lições da campanha de desinformação de 2019.]






