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Pão assado no forno alheio

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A língua materna é a maior zona de conforto, incomparável a qualquer outra intimidade, onde nos sentimos mais à vontade e seguros com outros que compartilham e enriquecem nosso código único e especial. A linguagem é também uma construção refletindo sistemas inventados por humanos para ordenar a realidade, tanto em seu aspecto físico quanto cosmológico.

De forma mais poética, cada idioma é um lar, onde se escondem coisas extraordinárias e surpreendentes em seus recônditos. É também um universo em si – tanto em sua permanência ao longo das eras e gerações quanto na expansão contínua de seus limites. O filósofo Wittgenstein falou sobre isso na língua georgiana com a palavra “sopeli”, que significa simultaneamente “aldeia” e “mundo”, como Wittgenstein tinha em mente ao escrever que “os limites do meu idioma são os limites do meu mundo”.

Fui conduzida ao universo georgiano pela música, que me fez parar no meio do Mercado Principal de Cracóvia em uma tarde de agosto no final dos anos 90. Dois rapazes, um mais baixo, com cabelos cacheados pretos e sobrancelhas parecidas com as de Włodzimierz Press, e o outro alto e loiro, misturavam suas vozes em uma harmonia incrível e cativante. Fiquei atônita, incapaz de reconhecer naquela polifonia e no som das vozes algo que já tinha ouvido antes.

Aos poucos, percebi quão certa estava ao não conseguir associar o idioma georgiano a nenhum círculo cultural e linguístico conhecido por mim. A causa é simples – esse círculo não existe. O georgiano e suas versões mais arcaicas, ou seja, todos os idiomas cartvele (chamados Kartveli pelos próprios georgianos), formam um grupo linguístico singular. Assim, talvez um dia possamos libertar o polonês desse colonialismo toponímico e começar a falar sobre os kartvelianos e a Kartvélia – como fez Julian Tuwim, traduzindo com a ajuda de um amigo georgiano a introdução ao épico do século XII de Shota Rustaveli, “O Cavaleiro na Pele de Tigre”.

Os idiomas kartvelianos, dos quais o georgiano faz parte, incluindo as línguas swan, megrelian e laz, não têm parentesco com nenhum outro idioma vivo ou morto. Em comparação, a família indo-europeia, da qual fazem parte quinze línguas eslavas, tem um total de quatrocentas e cinquenta línguas faladas por cerca de três bilhões de pessoas. Os georgianos têm, portanto, todo o direito de se sentirem excepcionais, como o mamute Maniek do popular desenho animado – igualmente excepcionais e solitários.

Como se deu o término do meu contato com o universo georgiano? – Aquele dia, a música levou-me a este convívio.

Mergulhando na cultura da Geórgia, encontrei uma infinidade de descobertas surpreendentes. Palavras e conceitos derrubavam máscaras e véus, revelando seus rostos desconhecidos, levando-me às origens linguísticas, aos lugares de nascimento e raízes da georgianidade. Desde que saí da minha zona de conforto linguística, tenho percebido cada vez mais a fascinante relação entre a língua e a visão de mundo – um fenômeno descrito pelo antropólogo e linguista americano Benjamin Lee Whorf. Com o seu nome está associada a hipótese de Sapir-Whorf, que postula que o pensamento humano é condicionado pela linguagem usada. De acordo com essa teoria, é o idioma que determina a formação de nossos pensamentos, e suas estruturas características servem de modelo para nossa vida mental: sempre pensamos dentro dos limites do nosso idioma.

Conforme essa hipótese, a linguagem influencia nossa percepção e experiência – ela determina o que vemos, porque projetamos no mundo externo a especificidade da fala que usamos. Ao aprender a gramática e etimologia do idioma georgiano e, ao mesmo tempo, imergir na especificidade cultural das pessoas que o falam, pude comprovar a validade dessa teoria.

É um desafio descrever esses fenômenos em relação ao idioma georgiano devido à falta de literatura especializada. Sobre a gramática das línguas cartvelianas, pouco ou quase nada foi escrito na Polônia, então tenho que usar conceitos em latim ou inglês e criar os meus próprios. A pesquisa futura nesse tópico será necessária, portanto, vamos nos concentrar em uma coleção de fenômenos, raridades e peculiaridades dos recantos da linguagem e alma georgianas.

Ao me transportar para Tbilisi uma ordem de magnitude atrás, desafiei corajosamente os obstáculos da gramática e fonética – recebam o ergativo, aqueles que conseguiram chegar ao final!

O grandioso povo kartveliano está engajado na luta contra um destino cruel, que atualmente está forçando o país para longe da órbita europeia, de volta ao círculo de influência russa. Georgianos têm se libertado da dominação soviética e olham para a Europa com esperança – diz o texto.

[Contexto: Este texto apresenta uma visão detalhada sobre a língua misteriosa e rica em significados da Geórgia, revelando a conexão profunda entre linguagem, cultura e identidade nacional.]