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Leandro Porto entende a presença como linguagem. Sua visão passa pelo comportamento, pela memória e pela moda para criar composições que parecem existir além da própria roupa. Em um setor movido pela velocidade e por um fluxo interminável de referências, seu trabalho encontra força no que exige tempo: observação, sensibilidade e identidade. Há uma sofisticação tranquila na forma como cultivou a sua linguagem criativa, equilibrando uma sensibilidade contemporânea com emoção e individualidade, sem nunca recorrer ao óbvio.

Numa época em que a relevância cultural é moldada tanto pela imagem quanto pelo som, o estilista está entre as figuras-chave responsáveis por moldar o imaginário visual da música brasileira. Sua parceria com Marina Sena continua sendo um dos exemplos mais emblemáticos de como moda e música podem se unir para criar algo que defina uma época – não apenas como tendência, mas como legado cultural.Juntos, eles construíram uma obra marcada pela brasilidade, sensualidade, experimentação e referências que transitam sem esforço entre a cultura popular e a alta moda.

Em capas de revistas, editoriais e campanhas, Leandro desenvolveu uma linguagem visual distinta, caracterizada por camadas, contrastes e uma percepção singular de beleza. Seu trabalho vai além de vestir artistas e figuras públicas ou construir aparências. Há um interesse genuíno em revelar identidades, transformando a moda e o storytelling em ferramentas capazes de criar imagens duradouras. Num momento em que o impacto cultural de um artista é cada vez mais medido pela força do seu universo estético, Leandro Porto ocupa uma posição central entre os profissionais que ajudam a moldar os códigos visuais do seu tempo.

ENTREVISTA DE DESTAQUE:
Seu estilo sempre parece contar uma história antes mesmo de a pessoa falar. Quando você começa a construir uma imagem, o que vem primeiro: a personalidade da pessoa, as roupas ou a emoção que a imagem precisa transmitir?
A personalidade sempre vem em primeiro lugar. Um look só funciona quando se conecta genuinamente com a pessoa que o usa. Para que meu trabalho aconteça de forma plena, tem que haver uma troca. Sou muito observadora e gosto de partir da história da pessoa que estou vestindo, trazendo referências e rumos que, muitas vezes, ela ainda não imaginou ou sequer reconheceu em si mesma.

Você veste mulheres com mundos e identidades completamente diferentes. Qual o maior desafio em transformar a identidade pessoal numa narrativa de moda sem cair no óbvio?
Sem dúvida, o maior desafio é o tempo. Leva tempo para trocar ideias, observar e conhecer alguém de verdade. Construir algo com forte senso de identidade exige esse processo, mas hoje tudo acontece muito rápido, muitas vezes de última hora e isso dificulta. Outro desafio é afastar-se de tendências óbvias e de curta duração. Procuro sempre propor caminhos que estejam mais ligados ao comportamento, às características e às memórias de uma pessoa. No final das contas, é isso que constrói e sustenta uma imagem.

Hoje, muitas imagens parecem projetadas exclusivamente para ter um bom desempenho nas redes sociais. O que ainda diferencia um estilo verdadeiramente memorável de um visual simplesmente “viral”?
Para mim, uma imagem se torna memorável quando o look complementa a personalidade da pessoa além da ocasião em si. Quando não domina ou ofusca a pessoa que o usa. Adoro quando uma imagem vai além de ser apenas um look lindo.
Você trabalhou em grandes projetos para a Vogue e em campanhas que mesclam moda, arte e cultura. Existe alguma imagem ou produção da sua carreira que você considera um divisor de águas criativo?
Eu diria que foi minha primeira capa da Vogue Brasil, com Sheila Bawar e MarVin.

A moda brasileira vive um momento em que a autenticidade parece mais valiosa que a perfeição. Na sua opinião, o que torna a estética brasileira tão poderosa e por que você acha que o mundo ainda ignora a moda brasileira mais do que deveria?
Acho muito difícil definir o que é “moda brasileira” porque estamos falando de um país com enormes dimensões territoriais e realidades sociais e econômicas muito diversas. Isso cria experiências completamente diferentes e, consequentemente, um leque infinito de possibilidades estéticas. Mas acredito que um dos nossos maiores pontos fortes está no artesanato e no trabalho artesanal. A produção artesanal brasileira é incrivelmente rica e diversificada e ainda merece um reconhecimento muito maior.

Seu trabalho mescla sensualidade, elegância e conhecimento de moda de uma forma muito diferenciada. O que ainda te move visualmente numa indústria onde parece que já vimos tudo?
Sou movida pela coragem de cometer erros, pela rebelião e pela vontade de me envolver com o que não é convencionalmente considerado bonito. Acho essencial que ainda existam criativos dispostos a experimentar, correr riscos e falhar. É daí que vem a verdadeira inovação.

Se você pudesse criar um editorial sem limites de orçamento, casting ou locação, qual a imagem que você ainda sonha trazer ao mundo?
É difícil responder porque estamos tão condicionados a criar dentro de limitações de orçamento e acesso que imaginar um projeto sem essas restrições requer um exercício de criatividade completamente diferente. Mas acredito que criaria um projeto colaborativo com marcas brasileiras que acredito genuinamente em algo construído em conjunto, livre de restrições comerciais.

Numa época em que a moda parece cada vez mais acelerada e descartável, o que você acredita que faz uma imagem permanecer no imaginário das pessoas?
Estamos criando cada vez menos tempo, e é por isso que as imagens muitas vezes parecem mais fracas e descartáveis. Temos menos planejamento e menos tempo para o processo criativo. Todo projeto precisa ser entregue cada vez mais rápido e, como resultado, muitas etapas importantes da criação ficam para trás. Dito isto, admiro profundamente os criativos que, mesmo com recursos limitados, conseguem combinar referências improváveis, ou que conseguem comunicar algo profundo através de algo extremamente simples.

Você e Marina Sena construíram uma das identidades visuais mais fortes da música brasileira hoje sexy, irreverente, sofisticada e inconfundivelmente brasileira. Como começou essa conexão criativa e qual você acredita ter sido o maior sucesso dessa colaboração estética?
Minha relação com Marina foi construída através do tempo e da admiração mútua. Tive a oportunidade de observar, conhecê-la, experimentar e também errar. Ela abraçou o processo, confiou nele e permitiu que se desenrolasse naturalmente. Desse processo surgiu algo sólido, algo que capturou um momento no tempo. Tive a liberdade de fazer perguntas, desafiar ideias, acessar memórias e traduzir tudo isso através de referências mais contemporâneas. Além disso, a beleza da Marina essa mistura de tantas camadas do Brasil sempre me ofereceu um enorme campo de possibilidades.

Existe algum artista, personalidade ou figura pública com quem você ainda sonha em trabalhar? O que desperta seu interesse criativo nessa pessoa?
Adoro trabalhar com artistas, principalmente músicos. Dois artistas com quem ainda sonho trabalhar são Maria Bethânia e Zé Ramalho.

CRÉDITOS DA EQUIPE:
Editor-chefe: Príncipe Chenoa
Editor de recursos: Taylor Winter Wilson (@taylor inverno)
Editor Brasil: Leonardo Loreto (@leonardoloreto)
Escritor: Gillian Caetano (@gilliancaetano)
Fotógrafo: Fernando Thomaz (@fernando_tomaz)
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