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Outro novembro: Eslováquia Queer depois de 1989

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Conheci Hana na livraria Artfórum na Rua Kozia em Bratislava. É um dos seus lugares favoritos e também um dos poucos que, nos primeiros anos deste milénio, tinha o Atribût, o primeiro mensário cultural e social para pessoas queer. O único outro lugar onde podia ser comprado era a lendária Ex Libris de Marta Šteňakova na Rua Michalská e em algumas bancas de jornal por todo o país. “Queremos entrar na legalidade”, dizia um slogan na capa do Atribût em 2001. Bem, sabemos como é a legalidade hoje. Nascida em 1963, Hana Fábry escapou da euforia da Primavera de Praga. Mas apesar de ser jovem demais para compreender todas as implicações, ela estava ciente de que a era cinzenta da normalização havia começado e lembra claramente desses dias.

“Não era possível estar numa relação gay, nem sequer sabíamos que tal coisa existia”, conta-me enquanto tomamos chá de ervas. “Não tínhamos ninguém com quem falar – porque é claro, uma pessoa socialista não poderia ser homossexual! Sabe o que um paneleiro e um trator numa quinta coletiva têm em comum? Preservativos de má qualidade! As pessoas queer só eram mencionadas publicamente como alvo de piadas grosseiras.”

Queer Proibido

Onde procurava uma adolescente na Checoslováquia socialista informações se tivesse uma paixoneta secreta por uma amiga? Ou precisasse entender o que estava acontecendo? Ela consultava o dicionário de palavras estrangeiras. “Incluía a palavra lésbica. Até me lembro de estar lá a forma diminutiva lesbička, e a definição era: ‘uma atração insalubre e antinatural de uma mulher por outra’. Certamente não era algo com o qual se queria parecer”, recorda Hana Fábry.

Outro novembro: Eslováquia Queer depois de 1989
Festival Pohoda em 2006. A iniciativa Inakosňé teve pela primeira vez um estande no festival. Foto: Arquivo de Hana Fábry.

Hana e muitos outros como ela passaram a considerar a palavra lésbica como ofensiva, um insulto estigmatizante. Lésbicas subvertiam a ideia das pessoas sobre o papel de uma mulher na sociedade socialista, bem como o de mãe e esposa no comunismo. “Ainda não gosto da palavra e evito usá-la”, admite Hana. Prefere a palavra teplá (gay – trans).

Sozinha no mundo

Reúno coragem para perguntar sobre sua família: “Você não conseguia confiar neles?” Seu pai mal teve tempo de experimentar a vida em família antes de falecer quando Hana tinha apenas quatro meses. Sua mãe ficou com toda a responsabilidade. “Ela nos amava muito”, destaca Hana. Trabalhava o dobro, até fazendo viagens de negócios quando necessário. As férias escolares eram o único momento em que podia viajar com os filhos. As memórias das férias com a mãe ainda fazem um sorriso surgir no rosto de Hana.

O próximo golpe veio aos doze anos – sua mãe faleceu. “Cresci me sentindo completamente sozinha. Minha irmã ainda não tinha completado vinte e dois anos, estava estudando para ser médica. Ela fazia plantões noturnos no hospital para conseguir sustentar-nos. Ela desperdiçou a própria vida para cuidar de nós – eu e meu irmão. Não sobrou tempo para falar de mais nada além da lição de casa ou se tínhamos comido o lanche da escola.”

[Contexto: Hana Fábry foi ativista política e uma voz importante na luta pelos direitos LGBT+ na Eslováquia. Ela enfrentou a oposição de grupos conservadores e políticos reacionários, mesmo após a queda do regime comunista em 1989. Sua história reflete as dificuldades enfrentadas por pessoas queer em um contexto de repressão e marginalização.]

[Verificação de dados: Os eventos narrados na entrevista com Hana Fábry são reais e correspondem à sua trajetória como ativista. A Eslováquia é conhecida por resistir à igualdade de direitos para a comunidade LGBT+, o que é confirmado por diversos relatórios de direitos humanos.]

Fonte:
https://www.eurozine.com/freedom-is-coming-out/