Entre 2003 e 2018, em 14 temporadas completadas, José Mourinho terminou fora dos dois primeiros apenas duas vezes. Ele ganhou oito títulos da liga e dois títulos da Liga dos Campeões. Ele venceu a Liga dos Campeões com o Porto e o Inter de Milão – ambas as equipes foram consideradas não tendo o direito de vencê-la.
A carreira de Mourinho obviamente sofreu um mergulho acentuado depois de 2018. Mas mesmo quando teve sucesso, o veredicto sobre ele ainda se solidificou em algo próximo de uma acusação moral – o anticristo – o inimigo do jogo. Como se a vitória tivesse custado ao futebol algo que o resto do desporto guardava silenciosamente.
Agora ele está de volta ao Real Madrid. O que significa que é apenas uma questão de tempo até que os seus métodos, e a vontade do Real Madrid de viver de acordo com eles, sejam arrastados de volta ao campo imaginário do belo futebol para a sentença habitual.
Então, quem tem assento nesse tribunal e quem lhes deu o tribunal? Por que o gosto de um admirador do Barcelona, do Manchester City ou do Liverpool pós-Klopp (torcedor, jornalista ou autor) supera o gosto de alguém que assiste em Casablanca, Guadalajara, Buenos Aires, Montreal ou Madrid?
Por qualquer medida honesta, o gosto deles não supera o de ninguém. Mas os portadores da tocha do futebol bonito chegaram primeiro, plantados na imprensa, depois no seu feed, e a ideia se infiltrou de qualquer maneira: que uma forma de jogar é simplesmente melhor que outra.
Certa vez, perguntaram a Mourinho de que maneira ele preferia vencer. Ele disse que preferia vencer. Essa foi a resposta completa. O futebol moderno funciona exatamente com isso. Cada equipe joga para vencer, o jogo que tem pela frente ou a mesa no final, e como chegar lá é problema seu. Isso continua sendo problema deles mesmo quando eles perdem.
O futebol existe para entreter quem o assiste. Não existe evangelho que diga a uma pessoa o que a diverte. O torcedor do Getafe que aparece toda semana para ver seu time segurar menos a bola do que qualquer outro na LaLiga não é menos torcedor do que aquele que desmaiou por Lamine Yamal no Camp Nou ou por Vinícius Jr. Eles querem algo diferente dos noventa minutos e ninguém indicou o outro lado para avaliá-los.
No centro deste debate está o seguinte: os defensores da vitória nunca questionaram o outro lado. Eles disseram, cada um com o seu. Os autoproclamados guardiões do futebol bonito disseram: não, não é cada um com o seu. Só o que é nosso é verdadeiro. O que te deixa contente não existe. O que nos diverte é a última palavra sobre a nossa felicidade e seu felicidade.
Em seu novo livro O maiorMiguel Lourenço Pereira faz uma observação simples sobre o Real Madrid – a obsessão por vencer que as pessoas chamam de sem alma nunca foi sem alma. Foi uma sobrevivência. O Madrid começou como um dos vários clubes da cidade, e os que não venceram – não duraram.
Vencer é a razão da existência do clube. Cem anos depois, as pessoas usam isso contra o clube. Eles questionam um clube por ser bom exatamente naquilo para o qual foi construído e por fazê-lo mais do que qualquer outro na Europa. Tem paralelos com a história de Mourinho. Mourinho subiu na classificação do Barcelona como o tradutor de Sir Bobby Robson e Louis Van Gaal. Para deixar de ser o tradutor para sempre, ele tinha que vencer. E ele ganhou muito antes de parar de ganhar. Talvez ele volte a vencer agora que está no Real Madrid.







