O Brasil social está cheio de memes sobre o jovem atacante Endrick e Carlo Ancelotti que pintam a relação de trabalho deles como “o que quer que o jogador queira fazer, Ancelotti faz o oposto”. Mas a realidade é que Endrick atravessaria o fogo por seu treinador.
“Ele [Ancelotti] age em seus pensamentos, e as coisas simplesmente acontecem”, disse Endrick, antes do jogo de oitavas de final do Brasil contra a Noruega. “É como se Deus o olhasse de cima e falasse … ele é iluminado. Todos estão seguindo seu plano. Quando ele me pede para fazer algo, eu faço. Não olho para trás; apenas escuto sua voz e faço o que ele me pede”.
Não foi sempre assim … muito longe disso. Os anos desde a eliminação nas quartas-de-final do Brasil para a Croácia em 2022 no Catar foram turbulentos; Ancelotti é o quarto técnico desde a saída muito amada de Tite após o Catar 2022. Antes dele, Ramon Menezes foi interino por três jogos, depois Fernando Diniz por seis, antes de Dorival Junior durar 16 com uma porcentagem de vitórias de apenas 43,75%. E enquanto isso, a CBF tentou seduzir o treinador do Real Madrid, Ancelotti.
Em maio de 2025, eles conseguiram o homem. E desde sua primeira coletiva de imprensa, onde falou sobre o peso da espera pela sexta estrela da Copa do Mundo e como era hora de forjar uma nova identidade, Ancelotti tem mudado as coisas na Seleção. Os dias do Jogo Bonito se foram; isso é o Ancelotti-ball.
Uma evolução silenciosa
A pressão sobre cada geração desde a última vitória do time masculino do Brasil na Copa do Mundo em 2002 tem sido imensa. “Acho que a responsabilidade do Brasil é vencer a Copa do Mundo”, disse o atacante Matheus Cunha na sexta-feira.
Cada jogo nesta Copa do Mundo, os ícones assistiram dos camarotes como benevolentes imperadores romanos. Ronaldo, Ronaldinho, Kaka, Roberto Carlos e Dunga estão todos lá, e cada Copa do Mundo que passa sem que esse time iguale os imortais de 1958, 1962, 1970, 1994 e 2002 adiciona pressão.
Não foi uma Copa do Mundo fácil até agora para o Brasil. Antes da bola rolar, eles perderam Estêvão, Éder Militão e Rodrygo por lesão, depois começaram mal com um empate de 1 a 1 contra Marrocos. Mostraram mais de si mesmos na vitória por 3 a 0 sobre o Haiti, mas também viram Raphinha se lesionar antes de uma vitória por 3 a 0 sobre a Escócia.
E então veio o jogo das oitavas de final com o Japão, onde lutaram no primeiro tempo e foram para o intervalo perdendo por 1 a 0. O meio-campista Casemiro, de 34 anos, recebeu muitas críticas, especialmente por sua atuação no gol japonês, mas Ancelotti manteve a confiança nele, e aos 56 minutos Casemiro marcou o gol de empate. O atacante do Arsenal Gabriel Martinelli então marcou o gol da vitória aos seis minutos do tempo extra.
Em meio a tudo isso, os jogadores tem mencionado o quão calmo Ancelotti é. Os torcedores brasileiros aprenderam a amar a sobrancelha levantada dele no banco, e como ele é discreto mesmo quando marcam um gol no último minuto, como o de Martinelli contra o Japão.
“Sua calma dá a impressão de que tudo vai dar certo e retira a pressão dos jogadores”, diz o comentarista da ESPN Brasil, Andrés Kfouri. E os jogadores concordam.
“Conhecemos seu histórico e o quanto ele é um vencedor”, disse Douglas Santos. “Ele nos transmitiu uma sensação de calma que nos deu força, nos deu energia e a confiança para voltar para o segundo tempo sabendo da qualidade que temos e que poderíamos colocar em prática no jogo”.
Mas Ancelotti levou tempo para conquistar o Brasil. Apesar de seu impressionante registro de cinco títulos da Liga dos Campeões e seis títulos de liga doméstica ao longo de sua passagem pelo AC Milan, Chelsea, PSG, Real Madrid e Bayern de Munique, houve aqueles que questionaram sua nomeação para o cargo de técnico do Brasil quando foi confirmada em maio de 2025.
Os tradicionalistas queriam um treinador brasileiro em vez de Ancelotti, que foi o primeiro treinador estrangeiro da equipe a comandá-los em uma partida oficial desde 1925, quando o uruguaio Ramon Platero estava no comando na Copa América. Emerson Leão, o goleiro campeão da Copa do Mundo de 1970, foi rápido em criticar Ancelotti após seus dois primeiros jogos no comando, onde empataram com o Equador e venceram o Paraguai por 1 a 0.
“Acho que ele terá muita dificuldade, não apenas um pouco, muita dificuldade”, disse. “E todos que trabalham com ele – brasileiros, atletas, gestores, técnicos, assistentes, jogadores – têm que cooperar. Porque esse processo vai piorar cada vez mais”.
O Brasil perdeu para a Bolívia, Japão e França antes da Copa do Mundo de 2026, mas alguns viram a evolução silenciosa que Ancelotti estava construindo após anos de turbulência.
“Não acho que ele precise convencer ninguém; seu trabalho diário nos clubes fala por si, e com a seleção nacional ele fez um bom trabalho”, diz o ex-internacional brasileiro Ze Elias para a ESPN. “Levou um tempo para entender, em alguns aspectos, o clamor público – o que o Brasil é, o que o Brasil significa em relação ao futebol, ou o que o futebol significa no Brasil. É uma coisa ver de fora, é outra coisa experimentar isso no dia a dia, entender a mentalidade brasileira – como o futebol faz parte dela”.





